Havia perdido tudo, o emprego, família, teto e principalmente, minha dignidade e a vontade de viver.Tudo aconteceu tão rápido e quando dei por mim estava aqui,vendo minha vida passar sem sentido..Não tenho mais documentos que comprovem que eu exista, não sou computado no senso,não tenho um endereço.Às vezes sinto que realmente não sou ninguém.
Todos os dias fecho meus olhos e lembro de tudo que me aconteceu, os dias que passei frio, fome, que aguentei os olhares de canto, que senti medo.Já não reconheço meu rosto, agora com tantas marcas de uma vida castigada, doída e humilhante.
Aprendi a ser assim, um miserável.Lutando pela sobrevivência, lutando por ter mais um dia de vida. Me sinto como se não tivesse uma função na sociedade, como se minha única função fosse mostrar o resultado de um sistema desigual e opressor, que favorece uns, enquanto para outros nada sobra, só as migalhas, um pedaço de pão duro,algumas moedas, o medo de morrer de fome e os dedos congelados de frio.Já não tenho mais vida, são apenas alguns sentidos funcionando sobre meu corpo.
Pra mim não existe mais feriado ou férias.Todos os meus dias são iguais, os meses não se diferem.Não tenho mais pra onde ir e isso já nem me importa mais.Minhas maiores alegrias não são iguais as das outras pessoas,elas estão em uma dose de cachaça ,que me faz fugir dessa realidade cruel e na companhia de um cão, que por sinal , a companhia mais sincera que eu poderia ter.
Às vezes sinto que faço parte de uma paisagem urbana que as pessoas não fazem questão de olhar e sem saberem da minha história, da minha vida, me chamam de bêbado, vagabundo, desocupado. Reclamam da minhas roupas, do meu cheiro, da minha presença.Julgam meus méritos, meus porquês, minhas decisões ou falta delas.Mas quem tem o direito de julgar alguém?
Para fazer isso teriam que saber ler as entrelinhas da minha vida, algo raro para a maioria das pessoas Ás vezes me confomo com a idéia que não consigo viver em um mundo com tantas regras e convenções, mas lá no fundo ainda espero um milagre. Um milagre no sentido de encontrar forças para sair dessa situação,pra mudar, pra ser digno de um olhar sincero, digno de carinho.Espero encontrar forças pra realizar os sonhos que ainda me restaram, os que não se perderam nesse caminho tortuoso.Sou considerado livre, mas no fundo me sinto escravo de mim mesmo, das minhas amarguras, do meu passado, das minhas angústias e aflições. Espero voltar a sorrir, espero voltar a viver.
Aos poucos, começo a perceber a diferença entre a minha situação e a das outras pessoas. No meu caso,minhas mazelas são totalmente expostas diariamente à praça pública, todos as conhecem, todos as julgam, diferente das outras pessoas, que escondem seus piores defeitos com classe, por meio de sorrisos falsos e uma bela capa.Sou isso que vêem diarimente, em qualquer canto do mundo, em qualquer esquina ou num boteco sujo. Sou que você não quer ver, sou apenas mais um homem invisível.
Foto: Ariane Côrtes
Muito bom o texto, tu conseguiu por um lado interpretar o que talvez muitos moradores de rua no fundo sentem a respeito de si próprios. Foi um texto diferente dos que tu escreve normalmente, uma visão diferente, mas sem perder a classe ^^.
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